Projeto de artesanato indígena criado por líder voluntária se expande pelo MS e estimula reconhecimento cultural e empoderamento feminino

Por Vitória Faoro

Bolsas com pintura terena realizada em oficina. Foto cedida por Janir Gonçalves Leite

Iniciativa recebeu o prêmio Viva Voluntário 2018, resultado de parceria da Casa Civil com o PNUD

O projeto de geração de renda a partir da confecção de biojóias com mulheres indígenas realizado pela servidora pública Janir Gonçalves Leite não para de crescer. Além de beneficiar a comunidade em aspectos que vão da emissão de documentos à geração de renda, a atividade foi uma das vencedoras do Prêmio Viva Voluntário em 2018, na categoria Líder Voluntário.

O Viva Voluntário é resultado de uma parceria da Casa Civil da Presidência da República com o PNUD.

Na premiação, a iniciativa recebeu um financiamento de R$50 mil da Fundação Banco do Brasil para expandir suas atividades. O reconhecimento foi dado pela atuação na Aldeia Urbana Tico Lipú em 2017, localizada em Aquidauana, no Mato Grosso do Sul. Este é o segundo local em que o trabalho foi realizado, depois da Aldeia Ipegue, também no MS, onde a ação aconteceu em 2008. Com o recurso, Janir levou o projeto de artesanato para uma terceira comunidade, a Aldeia Água Branca, no mesmo estado.

A atividade na Aldeia Tico Lipú teve o apoio e participação da comunidade desde o início da implementação, e conseguiu reverter o quadro de pobreza dos moradores a partir da geração de renda e do reconhecimento da aldeia pela FUNAI. Além do artesanato, Janir também desenvolveu uma ação de contação de histórias na língua Terena para os jovens, a fim de estimular a prática do idioma e resgatar a cultura local.

Aldeia Água Branca

O contato com a Aldeia Água Branca, que recebeu a expansão das atividades, foi feito com intermédio do Cacique Mario Julisson, um líder jovem que busca de melhorias para sua comunidade. Por ser de família indígena, Janir explica que os caciques da região a conhecem, o que facilita a construção de uma rede de confiança com a comunidade, requisito indispensável para implementação dos projetos.

A servidora pública iniciou as atividades de artesanato com uma oficina para confecção de roupas típicas com pintura terena para serem utilizadas na festa do Dia do Índio, comemorado no dia 19 de abril. Foram 60 conjuntos executados por cerca de 40 mulheres. A líder organizou também uma atividade de confecção de biojoias, como fez na Aldeia Tico Lipú. A mobilização foi grande, pois a comunidade é unida e ficou satisfeita em receber o projeto.

Para a realização das oficinas, elas utilizam o espaço de uma antiga escola, cedido pelo cacique. Os moradores estão construindo, em regime de mutirão, um centro comunitário em formato de oca, com objetivo de unir as pessoas e realizar as atividades de artesanato, que será inaugurado na festa do Dia do Índio, junto com uma exposição. Oficinas de cestaria e de produção de peças em cerâmica já estão programadas para acontecer na nova oca.

Trabalho com as mulheres

As atividades são ministradas por artesãs da comunidade que detém a técnica e a ensinam para as demais. No caso da cerâmica, apenas duas idosas da região ainda guardam esta competência, por isso vão registrar em vídeo todo o processo durante a oficina, desde a retirada da cerâmica até a produção final, para assim poder replicar o processo e produzir as peças. Para Janir, este modelo de atuação auxilia na preservação da cultura, além de valorizar as idosas e mulheres que ministram as oficinas.

O método também foi utilizado na Aldeia Tico Lipú, quando fizeram o curso de confecção de bolsas com 15 participantes, ministrado por duas moradoras locais. As bolsas fabricadas já foram comercializadas, possibilitando a continuidade do trabalho.

Segundo Janir, as atividades voltadas para mulheres nas aldeias são essenciais, e que essa demanda vem da própria comunidade. “As mulheres me falam que não há ações sociais voltadas para incentivá-las, todas são focadas nos homens”, explica a líder voluntária.

Ademais, elas já realizam diversos tipos de artesanato, mas de maneira pulverizada no território, e não se sentem valorizadas pelo seu ofício. Por isso, a intenção das oficinas é não apenas desenvolver o ofício e a geração de renda, mas também incentivar o reconhecimento dessa ocupação, e o consequente empoderamento feminino.   

Continuidade do projeto

Além do projeto de artesanato, Janir tem outras ideias para o desenvolvimento econômico e social das aldeias, como de produção de sabão ecológico feito a partir de óleo de cozinha reaproveitado e vinagre, também com as mulheres da comunidade. Para realizá-lo ela busca um espaço apropriado e apoio do poder público. Já na Aldeia Água Branca, que antigamente era uma grande produtora de farinha e de rapadura, será realizado um mapeamento da fabricação destes insumos, em busca dos moradores que ainda detém a técnica para voltar a comercializá-los.

A expansão do projeto de Janir se dá pelo caráter replicável e sustentável. Ela considera as especificidades de cada aldeia e estimula o protagonismo dos moradores em todas as etapas. Por isso, sua entrada é bem aceita pelos moradores e outras comunidades a procuram para implementação em seus territórios. As dificuldades principais para a contínua expansão são a escassez de recursos financeiros e a falta de tempo. “[o projeto com as mulheres] está sendo muito aceito pelas comunidades, o que dificulta é a falta de recursos e de tempo, pois faço esse trabalho fora do horário do meu emprego, que são 6 horas por dia”, argumenta Janir.