Ao estimular uso do ambiente comunitário, líder voluntário cria fontes de renda e incentiva brincadeiras de rua em comunidade do DF

Por Vitória Faoro


Bruno Lopes na cerimônia de premiação do Prêmio Viva Voluntário.

Foto: Casa Civil Presidência da República  

A iniciativa Curumim Cultural começou quando Bruno Lopes, morador de Samambaia, no Distrito Federal, percebeu que as crianças de seu bairro não tinham o costume de brincar ao ar livre. Na quadra em que vive há muitos jovens, que raramente eram vistos na rua, por diversos motivos, desde o fácil acesso aos equipamentos eletrônicos, ou pela sensação de insegurança que existe no ambiente externo. 

A nova geração da vizinhança estava habituada a ficar em casa e, portanto, era mais propensa ao sedentarismo, à dificuldade de fazer amizades e de conhecer sua comunidade. Levado por um sentimento de nostalgia ao lembrar de seu próprio tempo de menino – em que fazia atividades como queimado, biloca (bolinha de gude), pião, carrinho de rolimã, com seus amigos e irmãos – Bruno teve a ideia de realizar um trabalho com os pequenos da região.

O projeto Curumim Cultural foi um dos vencedores do prêmio Viva Voluntário em 2018, na categoria líder voluntário. Além da celebração das atividades realizadas, o projeto recebeu financiamento de R$50 mil da Fundação Banco do Brasil para ampliar sua atuação. Com o prêmio Bruno pôde investir em um veículo para levar as atividades para toda a região de Samambaia, e em janeiro e fevereiro de 2019 realizaram a primeira caravana Curumim Cultural.

A primeira ação foi realizada em 12 de outubro de 2015, não por acaso, no Dia das Crianças. Foi uma atividade simples, em que Bruno e um grupo de amigos voluntários incentivaram as brincadeiras de rua. Eles desenharam amarelinha no chão, organizaram corrida de saco, e fabricaram brinquedos de lata, como carrinhos e pé-de-lata. O evento, batizado de Dia dos Curumins, fez sucesso com a criançada. Os joguetes antigos, para os meninos e meninas acostumadas com videogame e celular, viraram novidade. A partir da estreia, o grupo passou a realizar pequenas atividades mensais com os pequenos das redondezas e, aos poucos, conseguiram incluir novos itens no arsenal, como bolinhas de gude, ioiô, bete e carrinho de rolimã. 

Como o objetivo do grupo é resgatar as raízes do brincar, eles buscaram trazer esta mensagem também para o nome e o símbolo do projeto. Assim, escolheram o curumim, criança em Tupi Guarani, para representá-los. Hoje o público que frequenta as ações do Curumim Cultural vai além da comunidade inicial, e compreende todas as classes econômicas e faixas etárias, visto que as ações são gratuitas e abertas. Embora o direcionamento seja para o público infanto-juvenil, estes vêm acompanhados de seus pais e responsáveis, que também se beneficiam das atividades. A metodologia do brincar criada pelo Curumim Cultural, que começou em Samambaia Norte, está sendo replicada em outras regiões administrativas do Distrito Federal, como Samambaia Sul e Ceilândia.

Participação de todos

Apesar de ter conseguido envolver as crianças locais, o projeto Curumim Cultural enfrentou dificuldades no início. Muitos moradores da região passaram a reclamar do barulho gerado pela correria e agitação dos meninos e meninas. Alguns pais também se incomodaram com a suposta falta de segurança para que seus filhos ficassem do lado de fora. O trabalho do grupo passou a ser, então, não apenas sobre o estímulo à brincadeira ao ar livre, mas também de conscientização da comunidade sobre a importância da utilização do ambiente comunitário.

O grupo acredita que por meio da utilização do espaço público, o mesmo se torna mais seguro.  Para permitir que seus filhos frequentem a rua, os responsáveis também saem de suas casas acompanhando as crianças, o que acaba promovendo encontros, conversas e o resgate da vida em comunidade. Dessa maneira, estimulam a criação de vínculos entre vizinhos, gerando um ciclo de confiança. Bruno explica que “muitas vezes uma mãe pede para outra que essa dê uma olhada em seu filho, enquanto ela cuida de suas tarefas, o que promove uma rede de proteção mútua”.

O grupo incentiva a participação de todos nas atividades e no cuidado com o espaço público. Na quadra em que o Curumin Cultural iniciou suas atividades estão doze conjuntos de edifícios, e todos os moradores estão convidados a participar das atividades. A partir do momento em que algum espaço é apropriado pela comunidade, os moradores passam a mantê-lo.

Para estimular ainda mais o envolvimento e colaboração da comunidade, o projeto solicita doação de materiais para fabricação de brinquedos. Bruno conta que, com o crescimento do projeto, o Curumin virou assunto na mídia, o que ajudou a criar uma relação mais forte dos moradores com seu entorno. “Quando a mídia vai ao local, tira fotos, o pessoal olha e fica lisonjeado que aquilo acontece na sua comunidade, assim passa a se orgulhar de onde mora e das pessoas com quem convive”, ilustra o idealizador. Esse sentimento de pertencimento fortalece a rede social da vizinhança, em um movimento que vem de dentro da comunidade.

Edital e expansão

Em 2016, o Curumim Cultural conseguiu acesso a uma verba pública do Fundo de Apoio à Cultura da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal. Esse apoio viabilizou a divulgação, expansão do programa, e a aquisição de novos equipamentos, como jogos de tabuleiros, bolas, tacos, raquetes, cordas, entre outros materiais que dão apoio às brincadeiras tradicionais. Como parte do edital, o grupo realizou atividades mensalmente entre setembro e novembro daquele ano, sempre no último fim de semana do mês. Além disso, conseguiram convidar cerca de doze grupos para realizar atividades ligadas à cultura, como teatro de bonecos.

Bruno prometeu à comunidade que não deixaria a ação acabar ao fim do patrocínio. Desde então, todo último fim de semana do mês, o Curumim Cultural sai às ruas de Samambaia para realizar suas atividades. A profissão de Bruno, de coordenador de projetos sociais, o ajudou a montar o programa de maneira sustentável, de modo que não são necessários investimentos altos para manter seu funcionamento. O grupo promove suas atividades também em feiras, festas, e festivais e assim mantem a sustentabilidade da ação social.

Os benefícios da diversão

Bruno acredita que o entretenimento é essencial para a formação da criança. Seu interesse profissional é na área da educação, e seu sonho é desenvolver um método que envolva o aprendizado a partir da diversão. “Analisando a base curricular nacional e a do Distrito Federal, percebemos que cerca de 80% dos conteúdos e objetivos que a escola visa atingir podem ser feitos utilizando brinquedos e brincadeiras variadas”, explica o idealizador. Ele conta que incluíram noções de geografia no jogo do Pique Bandeira, por exemplo, ensinando a identificar as bandeiras de estados brasileiros, e instruindo sobre a divisão geográfica do país.

Bruno explica que o trabalho com brincadeiras é muito completo e, além da educação e formação infantil, é benéfico também para a saúde, considerando o conceito da Organização Mundial da Saúde (OMS), que inclui saúde física, mental e social. As atividades desenvolvidas pelo Curumim Cultural buscam desenvolver o lado emocional, a psicomotricidade, as relações sociais, e a saúde física. “Os jogos trabalham a euforia de ganhar, a empatia de torcer por um colega, o apoio aos companheiros que perdem, e as relações em geral. As crianças não se conheciam antes das atividades começarem, agora eles se conhecem, saem para brincar juntos”, relata Bruno.

As atividades do Curumim consideram também o empoderamento infantil e da comunidade para serem multiplicadores do projeto. O grupo tem como objetivo maior despertar a todos para a ideia do brincar livremente, sem o acompanhamento de um regente, de modo que as atividades se proliferem, e não dependam da ação direta deles.

Resultado das atividades

Bruno conta que há diferenças nítidas na comunidade após a intervenção do Curumim Cultural. Em primeiro lugar, o relacionamento entre vizinhos, que antes nem sequer se conheciam, e agora desfrutam conjuntamente do seu tempo livre. Além disso, a comunidade passou a se mobilizar, e construíram o Parque da Biloca e a Roda da Cultura em regime de mutirão. 

O grupo incentivou também o plantio de árvores na região. Inicialmente montaram o Pomar do Cerrado, com doze espécies nativas desse bioma. Cada um dos doze blocos da quadra 604, onde estão localizados, é encarregado de uma árvore, encorajando a contínua participação dos moradores no cuidado do entorno. Desde o início desta divisão, foram plantadas mais 26 árvores, além das iniciais. Ademais, houve redução significativa de descarte de lixo e entulho nas proximidades onde são realizadas as atividades do Curumim.

As atividades trouxeram também consequências na economia local. Devido a um aumento na demanda de brinquedos clássicos, como piões, bilocas, e pipas, pessoas da comunidade passaram a comercializa-los. Os voluntários do Curumim Cultural passaram também a atuar como oficineiros, brinquedistas, monitores e promotores de brincadeiras em festas, festivais, etc., criando assim mais fontes de geração de renda.